Avançar para o conteúdo principal

A um destinatário não identificado

Alemanha, 01 de novembro de 1951.

 

Prezado senhor,

Infelizmente estou atrasado com a minha resposta. Estive viajando nas férias e por isso sua carta ficou esperando.

O senhor experimentou em seu casamento aquilo que é praticamente um fato geral, isto é, que as pessoas são diferentes umas das outras. Basicamente, cada um permanece para o outro um enigma inescrutável. Nunca existe completa concordância. Se o senhor cometeu um erro, foi o de ter insistido demais em entender totalmente sua esposa, não levando em conta que as pessoas, no fundo, não querem saber quais os segredos que dormitam no mais profundo de sua alma. Quando se tenta penetrar demais numa pessoa, percebe-se que estamos forçando nela uma posição de defesa e despertando sua resistência. Através de nossa tentativa de penetração e compreensão ela se vê forçada a examinar dentro dela aquelas coisas que não gostaria de examinar. Cada pessoa tem seu lado escuro, do qual – enquanto as coisas vão bem – é melhor que nada saiba. Disso o senhor não tem culpa. Trata-se de uma verdade humana, universal. E ela é verdadeira apesar de muitas pessoas lhe garantirem que gostariam de saber tudo a respeito de si mesmas. É bem provavelmente que sua esposa tivesse muitos pensamentos e sentimentos que lhe eram desagradáveis e gostaria de esconder, inclusive de si mesma. Isto é simplesmente humano. Esta é a razão de muitas pessoas mais velhas se fecharem em seu isolamento onde não querem ser perturbadas. E trata-se sempre de coisas sobre as quais não se quer ter consciência bem clara. Certamente o senhor não é culpado da existência desses conteúdos psíquicos. Se, apesar disso, for atormentado por sentimentos de culpa, pense em pecados que nunca cometeu e gostaria de ter cometido. Isso pode curá-lo provavelmente de seus sentimentos de culpa para com a sua esposa.

Saudações cordiais,

C. G. Jung.

 

(1) Não dispomos do relato do sonho, anexo à carta.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ao Sr. Andrew R. Eickhoff

7 de maio de 1956. Prezado Sr. Eickhoff, Muito obrigado por enviar seu interessante manuscrito sobre Freud e a religião.(1) O fato histórico é que a atitude de Freud em relação à religião em qualquer forma era negativa, independentemente do que ele próprio tenha afirmado em seu artigo sobre o assunto. Para ele, a crença religiosa era de fato uma ilusão.(2) Se essa ilusão se deve a argumentos científicos objetivos ou a preconceitos pessoais, não importa quando se trata da questão dos fatos concretos. Sua atitude negativa foi um dos vários pontos de divergência entre nós. Não importava se era uma crença judaica, cristã ou qualquer outra, ele era incapaz de admitir qualquer coisa além do horizonte de seu materialismo científico. Fui extremamente malsucedido em minhas tentativas de fazê-lo perceber que seu ponto de vista era preconceituoso e anticientífico, e que sua ideia de religião era uma conclusão predeterminada. Em nossas muitas conversas sobre este e outros assuntos seme...

Ao Dr. Med. Ignaz Tauber

  Ao Dr. Med. Ignaz Tauber (1) Winterthur, 23 de janeiro de 1953.   Prezado colega! Muito obrigado por sua amável visita. Tive uma noite muito boa. Um quidinal bastou para sustar a taquicardia. Hoje vou melhor e já estou de pé. Ontem esqueci completamente de perguntar-lhe o que o senhor acha de seu fumar. Até agora eu venho fumando um cachimbo com condensação de água (2) pela manhã antes de começar o trabalho, um charuto pequeno, correspondente a um ou dois cigarros, após o almoço, outro cachimbo pelas 4 horas da tarde, um   charuto pequeno após o jantar e geralmente mais um cachimbo pelas nove e meia. Um pouco de tabaco ajuda-me na concentração e contribui para a paz de espírito. Peço também que me envie a conta dos honorários. O senhor teve a gentileza de trazer-me o Corhormon. Já tomei hoje uma injeção. Com sincera gratidão por seus conselhos, sou atenciosamente, C. G. Jung.   (1)Dr. Med. Ignaz Tauber, Winterthur; clínico geral e analista. Ele e su...

Para Maud Oakes

Prezada Srta. Oakes, 11 de fevereiro de 1956. Li sua meditação sobre a pedra com muito interesse. Seu método de leitura da mensagem é adequado e, neste caso, o único que produz resultados positivos. A senhora entende a pedra como uma declaração sobre um mundo mais ou menos ilimitado de imagens-pensamento. Concordo plenamente com seu ponto de vista. Pode-se ler os símbolos dessa maneira. Quando esculpi a pedra, porém, não pensei. Apenas dei forma ao que vi em sua superfície. Às vezes, a senhora se expressa (no manuscrito) como se meus símbolos e meu texto fossem uma espécie de confissão ou crença. Assim, parece que eu estava me aproximando da teosofia. Na América, em particular, sou culpado pelo meu suposto misticismo. Já que não afirmo de forma alguma ser o feliz proprietário de verdades metafísicas, preferiria muito mais que você atribuísse aos meus símbolos a mesma hesitação que caracteriza sua tentativa explicativa. Veja bem, não tenho convicções religiosas ou de qualquer outr...