Meu caro N., Maio de 1956. Minhas concepções são empíricas e nada especulativas. Se você as entender de um ponto de vista filosófico, estará completamente enganado, já que elas não são racionais, mas meros nomes de grupos de fenômenos irracionais. As concepções da filosofia indiana, no entanto, são profundamente filosóficas e têm o caráter de postulados e portanto, só podem ser análogas aos meus termos, mas não idênticas a eles. Tome, por exemplo, o conceito de nirdvandva. Ninguém jamais foi completamente libertado dos opostos, porque nenhum ser vivo poderia atingir tal estado, já que ninguém escapa da dor e do prazer enquanto funcionar fisiologicamente. Ele pode ter experiências extáticas ocasionais quando tem a intuição de uma completa libertação, por exemplo, ao atingir o estado de sat-chit-ananda. Mas a palavra ananda mostra que ele experimenta prazer, e você não pode nem mesmo estar consciente desse algo se você não discriminar entre opostos e, portanto, participar deles...
Prezado Sr. Dietrich, 27 de maio de 1956. Muito obrigado por gentilmente me contar seu interessante sonho.(1) Os matemáticos não concordam se os números foram inventados ou descobertos.(2) “No exército olímpico, o Número reina eternamente” (Jacobi). (3) Os números inteiros podem muito bem ser a descoberta dos “pensamentos primordiais” de Deus, como, por exemplo, o número significativo quatro, que possui qualidades distintas. Mas você pede em vão especulações da minha parte sobre o “desenvolvimento deste princípio de ordem”. Não posso me atrever a dizer nada sobre este problema transcendental que está enraizado no cosmos. A mera tentativa de fazê-lo me pareceria uma inflação intelectual. Afinal, o homem não pode dissecar os pensamentos primordiais de Deus. Por que os números inteiros são indivíduos? Por que existem números primos? Por que os números têm qualidades inalienáveis? Por que existem descontinuidades como os quanta, que Einstein gostaria de ter abolido? Seu son...