10 de outubro de 1956 Prezado senhor, Não sei onde o senhor obteve essa história um tanto infantil sobre diretores dos assuntos mundiais sediados em mosteiros tibetanos. (1) Seria uma tarefa difícil se alguém se aventurasse a lhe pedir a menor prova a esse respeito. De qualquer modo, posso lhe dizer que não sou membro de tal organização totalmente fantástica. Nunca sequer ouvi falar de sua existência, e eu não seria tolo a ponto de acreditar nela, mesmo que uma dúzia de sociedades teosóficas declarasse sua fé em tamanha farsa evidente. O senhor já viu sequer um verdadeiro *rimpoche* tibetano? (2) Eu já vi, inclusive um que estudou por 20 anos em Lhasa. Eles sabem muitas coisas interessantes, mas estão a léguas de distância de onde nós, no mundo ocidental, imaginamos que estejam. Atenciosamente, C. G. Jung. (1) O remetente escreveu uma carta bastante fantasiosa sobre todo tipo de grupo esotérico "com suas sedes principais nas montanhas trans-himalaicas" que controlaria o dest...
Setembro de 1956. Prezado Sr. Lasky, Muito obrigado por me enviar os três números da Der Monat com o artigo de James P. O'Donnell, Der Rattenfänger von Hameln (1), e as respostas de Hans Scholz (2) e do Dr. E. Schmitz-Cliever (3). Li-os com grande interesse e concordo plenamente com as opiniões dos dois últimos autores. Os fatos históricos relatados por O'Donnell jamais teriam bastado para dar origem a uma lenda tão estranha e inquietante. Ao contribuir — a seu pedido — com algumas palavras para a discussão, gostaria de enfatizar a realidade em torno da qual a lenda gira. H. Scholz também o fez, alertando acertadamente para que não a ignorássemos. Como psiquiatra, atribuo a devida importância à realidade em jogo aqui: a um poder que emana do inconsciente, cuja natureza discuti anos atrás em meu ensaio Wotan (4) — um ensaio que nem sempre é lido com prazer. Os poderes psíquicos a cuja mercê os homens se encontravam eram, antigamente, chamados de “deuses”, o que tinh...