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Mensagens

A um destinatário não identificado

  Agosto de 1956.   Prezado Sr. N., (1) Desculpe a demora na resposta, mas, como sou dez anos mais velho que você, presumo ser dez vezes mais lento também. Sua carta não apenas me interessou, mas também me impressionou. A escolha de suas esposas foi característica. Elas eram encarnações temporárias daquilo que chamo de sua “anima”. Não sei se você já está familiarizado com meus escritos a ponto de conhecer o arquétipo feminino que cada homem carrega em seu inconsciente (2). A Idade Média já conhecia esse fato psíquico peculiar e dizia: omnis vir feminam suam secum portat . Na prática, isso significa que a mulher de sua escolha representa a sua própria tarefa, aquela que você não compreendeu. Existe uma certa capacidade criativa que, aparentemente, não vem acompanhada de um dom técnico correspondente. Pessoas assim são bastante comuns e não conseguem entender que o homem criativo precisa criar e tornar visível sua obra, apesar de não conseguir fazê-lo adequadamente. Ele pode se...
Mensagens recentes

A uma destinatária não identificada

EUA, 10 de agosto de 1956.   Prezada, N., Fiquei muito satisfeito ao saber que agora você tem casa e terra próprias. Isso é importante para os poderes ctônicos. Espero que você encontre tempo para confiar à terra as suas contrapartes vegetais e cuidar do crescimento delas, pois a terra sempre deseja que filhos — casas, árvores, flores — brotem dela e celebrem o casamento da psique humana com a Grande Mãe; eis o melhor contrafeitiço para a extroversão desenraizada! Com os melhores cumprimentos a você e ao seu querido marido, Sempre seu fiel C. C. Jung Foto: Orquídea do quintal de minha residência.

A Ladis K. Kristof

Chicago, Ill./ EUA, julho de 1956. Prezado Sr. Kristof, Como o senhor sabe, não sou filósofo, mas sim um empirista; portanto, meu conceito de inconsciente coletivo não é filosófico, mas empírico. Designo com esse termo todas as nossas experiências de “padrões de comportamento”, na medida em que estes sustentam ou provocam a formação de certas ideias. Por estas últimas, refiro-me a ideias míticas no sentido mais amplo da palavra, tais como as que podem ser observadas na mitologia e no folclore, bem como nos sonhos, visões e fantasias de pessoas normais e psicologicamente doentes. A existência e o surgimento espontâneo de tais ideias, independentemente da tradição e da migração, permitem inferir a existência de uma disposição psíquica universal — um instinto — que provoca a formação de ideias típicas. A disposição ou o “padrão” instintivo é herdado, mas não a ideia em si; esta consiste em elementos recentes, adquiridos individualmente. Embora a inferência de uma disposição psíquica...

A Enrique Butelman

Prezado Senhor, julho de 1956. Quanto à tradução para o espanhol do meu livro Naturerklärung und Psyche (1), aconselho-o a utilizar a versão em inglês. Em comparação com o texto original em alemão, há um número considerável de melhorias na versão inglesa, as quais acredito que devam ser levadas em conta na edição em espanhol. Penso também que o apêndice acrescentado pelos editores ingleses (2) deveria fazer parte da sua edição. Interessa-me muito o fato de o senhor ter abordado o tema da sincronicidade. Minhas ideias a esse respeito parecem ser extremamente difíceis de compreender, a julgar pelas reações que recebi. As pessoas parecem incapazes de acompanhar minhas conclusões. Parece que elas ficam particularmente chocadas com o fato de eu utilizar estatísticas astrológicas e de acreditar que nada é explicado pelos termos telepatia, precognição, etc. Os físicos são até mesmo incapazes de aceitar o fato de que o termo “estatística” pressupõe a existência de exceções à regra, tã...

Para Marianne Niehus-Jung

  Querida Marianne, Bollingen, 17 de julho de 1956. Muito obrigado por sua carta encantadora; foi uma grande alegria recebê-la. Fico feliz por você não ter se entediado comigo. Também foi uma alegria passar um tempo com você. É verdade que não se pode compreender plenamente algo que ainda não existe, pois não se conhece o padrão que uma pessoa ainda viva irá preencher. A morte da mamãe deixou um vazio em mim que não pode ser preenchido. Por isso, é bom ter algo que se queira realizar e a que se possa recorrer quando o vazio se espalha ao seu redor de forma muito ameaçadora. A pedra em que estou trabalhando (1) (como aquela que esculpi no inverno) me proporciona estabilidade interior com sua dureza e permanência, e seu significado rege meus pensamentos. Lerei com prazer os manuscritos. Espero que não haja pressa. A construção deve começar amanhã (2), se a licença chegar. Mas ainda não tenho notícias. Você virá a Bollingen em algum momento? Ruth (3) manda lembranças...

Para Elined Kotschnig

Prezada Sra. Kotschnig, 30 de junho de 1956   Não é muito fácil responder à sua pergunta (1) no espaço de uma carta. A senhora sabe que nós, seres humanos, somos incapazes de explicar qualquer coisa que aconteça fora ou dentro de nós, a não ser pelo uso dos meios intelectuais à nossa disposição. Sempre temos que usar elementos mentais semelhantes aos fatos que acreditamos ter observado. Assim, quando tentamos explicar como Deus criou Seu mundo ou como Ele se comporta em relação ao mundo, a analogia que usamos é a maneira como nosso espírito criativo produz e se comporta. Quando consideramos os dados da paleontologia sob a perspectiva de que um criador consciente talvez tenha gasto mais de um bilhão de anos, e tenha feito, ao que nos parece, inúmeros desvios para produzir a consciência, inevitavelmente chegamos à conclusão de que — se quisermos explicar Seus feitos — Seu comportamento é surpreendentemente semelhante ao de um ser com uma consciência, no mínimo, muito limitada...

A uma destinatária anônima

Prezada Sra. N., 28 de junho de 1956   É difícil aceitar o destino que você descreveu. Além da conquista moral exigida, a aceitação completa depende muito da concepção que você tem do destino. Uma visão exclusivamente causal é permitida apenas no âmbito dos processos físicos ou inorgânicos. A visão teleológica é mais importante na esfera biológica e também na psicologia, onde a resposta só faz sentido se explicar o “porquê” disso. Portanto, é inútil se apegar às causas, já que elas não podem ser alteradas de qualquer forma. É mais gratificante saber o que fazer com as consequências e o tipo de atitude que se tem — ou se deveria ter — em relação a elas. Então, surge imediatamente a pergunta: O evento tem um significado? Um propósito oculto do destino, ou a vontade de Deus, teve alguma influência nisso, ou não passou de “acaso”, um “acidente’? Se o propósito de Deus era nos testar, por que então uma criança inocente deve sofrer? Esta questão toca num problema que é claramen...