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A Pater Lucas Menz, OSB

Abtei Ettal, Oberbayern

Alemanha, 22 de fevereiro de 1955.

 

Prezado Pater Lucas,

Li o seu rascunho com grande interesse. Considerando os tempos terríveis que vivemos, só posso concordar com o senhor. O seu texto me lembra o trabalho abençoado da OSB(1) naqueles séculos de obscurantismo, quando a cultura antiga ia desmoronando aos poucos. Estamos outra vez num tempo de decadência e transição, como por volta de 2.000 a.C., quando naufragou o Antigo Império do Egito, e por volta do início da era cristã, quando o Novo Império chegou ao fim definitivo e, com ele, a Grécia Clássica. O equinócio da primavera começa a sair do signo de Peixes e passar para Aquário, como antigamente de Touro (os antigos deuses-touro) para Áries (os deuses com chifres de carneiro), ou de Áries (o cordeiro sacrificado) para Peixes (2). Seria desejável que a OSB conseguisse também agora colocar em andamento uma obra redentora. Outrora, há mais de 1.500 anos, São Bento conseguiu colocar o vinho novo em garrafas novas, isto é, introduzir nas sementes, que brotavam na decadência, uma nova cultura através de um novo espírito, o espírito cristão. Também em nossa época apocalíptica há sementes de um futuro diferente, inaudível e ainda inconcebível, que poderiam ser assumidas no espírito cristão, se este pudesse ao menos renovar-se, como aconteceu com as sementes que estavam na antiga cultura decadente.

Mas acho que aqui está uma grande dificuldade. O novo que está para chegar será tão diferente quanto foi o mundo do século XIX em relação ao do século XX, com sua física atômica e sua psicologia do inconsciente. Nunca antes a humanidade esteve tão dividida em duas partes e jamais esteve nas mãos humanas a possibilidade da destruição total. É uma possibilidade “divina” que caiu nas mãos dos homens. A “dignitas humani generis” ascendeu para uma grandeza realmente diabólica.

O que responderá a isto o gênio da humanidade? Ou o que fará Deus com isto? O senhor responde com o espírito histórico no qual São Bento respondeu em sua época; mas ele falou e agiu com um novo espírito que era adequado para o antiespírito de seu tempo. Será que a resposta daquele tempo serve ainda para o problema atual? Abrange ela a terrível grandeza que se revelou no ser humano?

Parece-me que nós ainda não percebemos que tal questão foi levantada. Estamos presos ainda no medo sombrio e na confusão da inconsciência. Naquele tempo, o cristianismo trouxe para o mundo um Novum Lumen, a “lux moderna” (como os alquimista chamavam sua lumen naturae). Esta luz treme e bruxuleia hoje perigosamente, e a roda da história não se deixa mover para trás. Nem César Augusto, com todo o seu poderio, conseguiu êxito em sua tentativa de repristinação.

O senhor está certo ao supor que sua aflição não me é estranha e que simpatizo com o seu esforço. Mas, por que o senhor vem a mi, que sou protestante desde que nasci? O senhor presume muito bem que minha psicologia, nascida do espirito cristão, se esforça por dar respostas adequadas ao espírito da época; é a voz de um médico que luta para curar a confusão psíquica de sua época e que, por isso, é forçado a usar outra linguagem antiga, ou do que senhor usa. Muitas pessoas já não entendem a linguagem antiga, ou a entendem de modo errado. Se eu tiver que tornar inteligível a um paciente o sentido da mensagem cristã, deverei traduzi-la e comentá-la. Mas isto é realmente o objetivo prático de minha psicologia ou, melhor, psicoterapia. A teologia dificilmente concordaria com isso, ainda que o próprio S. Paulo tenha falado grego com os gregos, e isto ele provavelmente não deixaria de fazer, mesmo que o chefe da comunidade de Jerusalém o proibisse.

Tomo a liberdade de enviar-lhe meu livro Aion, no qual poderá ver que está lidando com um herege e correndo o risco de queimar os dedos. Gostaria de livrá-lo disso, pois o senhor pode ser útil a muitas pessoas, mesmo sem a psicologia moderna. Desejo-lhe pleno êxito em seus esforços, pois entendo perfeitamente suas preocupações, mesmo que isto não seja evidente para os de fora. Para a maioria das pessoas permanece oculto o fato de seu me basear no espírito cristão; devido à estranheza da linguagem e à incompreensão de meus anseios, mereço ser evitado.

Com saudações amigáveis de C. G. Jung.

 

(1)Ordem de São Bento. São Bento de Núrsia, por volta de 480-542, fundou o primeiro mosteiro da ordem beneditina no Monte Cassino perto de Nápoles.

(2)Cf. carta a Baur, de 29 de janeiro de 1934, nota 1.

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