Avançar para o conteúdo principal

Ao Dr. Zwi Werblowsky

The University

Leeds/Inglaterra, 21 de maio de 1953.

 

Prezado doutro!

Meus agradecimentos pelo gentil envio de suas duas conferências (1). Ei as li com grande interesse; a segunda, até duas vezes, pois anteontem chegou a Zurique o padre White. Sua crítica é muito interessante, mas um tanto difícil de se ler. Quando encontrei recentemente o padr White, ele ainda não a havia lido. Mas espero ter a oportunidade de discutir com ele alguns pontos. O senhor tem toda a razão com o “hornet’s nest” (2).

As duas figuras pretas em Kafka (3) referem-se a uma duplicação da sombra, ou do si-mesmo (the two white balls) (4). Esta dualidade associa-se, por exemplo, aos mensageiros do submundo (Apocalipse de Pedro) (5) ou “aos animais úteis”. Normalmente a sombra só aparece na unicidade. Se, às vezes, aparece na dualidade, trata-se por assim dizer de uma duplicação ótica, ou seja, de uma metade consciente e outra inconsciente, de uma figura sobre o horizonte e outra abaixo dele. O que eu sei de definitivo é que a duplicação parece ocorrer quando a figura separada é real num sentido especial, real como um fantasma. Aliás, as duplicações acontecem também no sonho, mas bem menos do que nos contos de fada e nas lendas. A duplicação é, por exemplo, a origem do motivo do “irmão hostil” (6).

Li a passagem de Ibn Esra (7) em algum livro, mas não consigo lembrar-me dela no momento. Espero encontra a citação.

Com os melhores votos, C. G. Jung

 

(1)Dr. Z. Werblowsky, “Psychology and religion”, The Listener, Londres, 23 de abril de 1953 e “God and the unconscious”, The Listener, Londres, 02 de maio de 1953; as duas conferências no terceiro programa da BBC. “God and the unconscious” era uma recensão crítica do livro, de igual título, do padre Victor White.

(2)Na segunda conferência-BBC, dizia o autor: In certain cases the psychologist “makes affirmations not only merely of what ‘apears’ but of whar ‘really’ is in spite of appearances (...) and this raises a hornet’s nest of question”. Em certos casos, o psicólogo “faz afirmações não apenas sobre o que ‘parece’, mas sobre o que ‘realmente’ é apesar das aparências (...) e isso levanta um ninho de vespas de perguntas”.

(3)Um motivo muitas vezes encontrado em Kafka é o aparecimento de duas figuras escuras e grotescas como, por exemplo, nos romances Das Schloss e Der Prozess.

(4)Conferir Kafka, “Blumfeld, ein älterer Junggeselle”, em Beschreibung eines Kampfes.

(5)O Apocalipse de Pedro é um escrito apócrifo da primeira metade do século II, atribuído a Pedro.

(6)Para o problema da duplicação, conferir OC, Vol. 9/1, § 608 (fig. 10). Para o motivo dos “irmãos inimigos”, conferir a carta a Evans, de 17 de fevereiro de 1954, nota 4.

(7)Conferir a carta a White, de 30 de abril de 1952, nota 4.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Para Maud Oakes

Prezada Srta. Oakes, 11 de fevereiro de 1956. Li sua meditação sobre a pedra com muito interesse. Seu método de leitura da mensagem é adequado e, neste caso, o único que produz resultados positivos. A senhora entende a pedra como uma declaração sobre um mundo mais ou menos ilimitado de imagens-pensamento. Concordo plenamente com seu ponto de vista. Pode-se ler os símbolos dessa maneira. Quando esculpi a pedra, porém, não pensei. Apenas dei forma ao que vi em sua superfície. Às vezes, a senhora se expressa (no manuscrito) como se meus símbolos e meu texto fossem uma espécie de confissão ou crença. Assim, parece que eu estava me aproximando da teosofia. Na América, em particular, sou culpado pelo meu suposto misticismo. Já que não afirmo de forma alguma ser o feliz proprietário de verdades metafísicas, preferiria muito mais que você atribuísse aos meus símbolos a mesma hesitação que caracteriza sua tentativa explicativa. Veja bem, não tenho convicções religiosas ou de qualquer outr...

Ao Prof. Markus Fierz

  Ao Prof. Markus Fierz, Basileia, 05 de abril de 1955.   Prezado Professor, Muito obrigado por enviar-me seu escrito sobre a doutrina do espaço absoluto, de Isaac Newton (1). É um assunto que me interessa muito, e só espero que minha força mental ainda consiga acompanhar a linha de pensar de Newton. Tenho a intenção de fazer uma visita à sua mãe (2); é admirável como suporta sua doença que não tem esperança de cura. Meus agradecimentos e cordiais saudações, C. G. Jung   (1)M. Fierz, “Über den Usprung und die Bedeutung der Lehre Isaac Newton vom absoluten Raum”, em Gesnerus II, Aarau, 1954. (2)Linda Fierz-David, autora de Der Liebestraum des Poliphilo, Zurique, 1947. Prefácio de Jung em Vol. 18.  

Ao Dr. Med. Ignaz Tauber

  Ao Dr. Med. Ignaz Tauber (1) Winterthur, 23 de janeiro de 1953.   Prezado colega! Muito obrigado por sua amável visita. Tive uma noite muito boa. Um quidinal bastou para sustar a taquicardia. Hoje vou melhor e já estou de pé. Ontem esqueci completamente de perguntar-lhe o que o senhor acha de seu fumar. Até agora eu venho fumando um cachimbo com condensação de água (2) pela manhã antes de começar o trabalho, um charuto pequeno, correspondente a um ou dois cigarros, após o almoço, outro cachimbo pelas 4 horas da tarde, um   charuto pequeno após o jantar e geralmente mais um cachimbo pelas nove e meia. Um pouco de tabaco ajuda-me na concentração e contribui para a paz de espírito. Peço também que me envie a conta dos honorários. O senhor teve a gentileza de trazer-me o Corhormon. Já tomei hoje uma injeção. Com sincera gratidão por seus conselhos, sou atenciosamente, C. G. Jung.   (1)Dr. Med. Ignaz Tauber, Winterthur; clínico geral e analista. Ele e su...