Avançar para o conteúdo principal

À Aniela Jaffé




Zurique, 22 de outubro de 1954.

 

Prezada Aniela!

Finalmente pude assimilar coerentemente suas 16 páginas sobre Der Tod des Vergil (1). Causou-me profunda impressão e admirei sua mão prodigiosa que, tateando ao longo das linhas diretrizes secretas de Broch, trouxe à luz de vez em quando algo precioso. Você tem razão: a coisa está aí dentro.

Eu me admirei muito de minha relutância em deixar que se aproximasse de mim este Tod des Vergil, contra o qual opus todo tipo de empecilhos. Hoje de manhã me veio a intuição: estava com ciúme de Broch porque ele conseguiu aquilo que eu tive de proibir a mim mesmo sob pena de morte. Revirando-me no mesmo turbilhão infernal e arrebatado em êxtase pela visão de imagens abissais, ouvi uma voz que queria sussurrar-me de que era possível fazê-lo “esteticamente” (2), sabendo que porém que o artista da linguagem em mim, necessário para isso, era apenas um embrião, incapaz de real obra de arte. Eu nada mais teria produzido do que um monte de cacos, do qual jamais sairia um vaso. Apesar desse reconhecimento já existir há muito tempo, o artista homunculus dentro de mim nutriu todo tipo de ressentimentos e certamente levou muito a mal que eu não lhe tenha colocado na cabeça uma grinalda de poeta.

Eu tinha de lhe contar logo este intermezzo psicológico. Na próxima semana tentarei tirar umas férias. A senhora pode imaginar meu caos de cartas – sem secretária!

Cordialmente, C. G. Jung

 

P.S. Além do mais, por que deveria ser a morte do poeta?

 

(1)O manuscrito do trabalho “Hermann Broch: Der Todd es Vergil”. Uma versão ampliada foi publicada na obra comemorativa dos 80 anos de Jung, Studien zur Analytischen Psychologie C. G. Jungs, vol. II, Zurique, 1955.

(2)Cf. para isso Memórias, p. 164s.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Para Piero Cogo

Prezado Senhor Cogo, 21 de setembro de 1955 Você não pode imaginar, com base em uma reportagem de jornal, o que quero dizer quando digo que se pode conhecer Deus sem ter que fazer o esforço, muitas vezes infrutífero, de acreditar.  Como você sabe, sou psicólogo e me preocupo principalmente com a investigação do inconsciente. A questão da religião, entre outras coisas, também se enquadra nesse tópico. Se você quiser me entender corretamente, leia minhas descobertas psicológicas. Não posso comunicá-las a você em uma carta. Sem um conhecimento profundo da psique humana, observações arrancadas de seu contexto permanecem completamente ininteligíveis.  Não se pode esperar que jornalistas se preocupem com as bases do nosso pensamento.  Do ponto de vista psicológico, a religião é um fenômeno psíquico que existe irracionalmente, como o fato da nossa fisiologia ou anatomia. Se essa função estiver ausente, o homem como indivíduo carece de equilíbrio, porque a experiência religiosa é...

Ao Prof. Markus Fierz

  Ao Prof. Markus Fierz, Basileia, 05 de abril de 1955.   Prezado Professor, Muito obrigado por enviar-me seu escrito sobre a doutrina do espaço absoluto, de Isaac Newton (1). É um assunto que me interessa muito, e só espero que minha força mental ainda consiga acompanhar a linha de pensar de Newton. Tenho a intenção de fazer uma visita à sua mãe (2); é admirável como suporta sua doença que não tem esperança de cura. Meus agradecimentos e cordiais saudações, C. G. Jung   (1)M. Fierz, “Über den Usprung und die Bedeutung der Lehre Isaac Newton vom absoluten Raum”, em Gesnerus II, Aarau, 1954. (2)Linda Fierz-David, autora de Der Liebestraum des Poliphilo, Zurique, 1947. Prefácio de Jung em Vol. 18.  

Ao Dr. Hans A. Illing

Los Angeles (Calif. EUA), 26 de janeiro de 1955.   Prezado Doutor, Enquanto médico, considero a perturbação psíquica (neurose ou psicose) uma doença individual; e assim deve ser tratada a pessoa. No grupo o indivíduo só é atingido na medida em que é membro do mesmo (1). Em princípio isto é um grande alívio, pois no grupo a pessoa é preservada e está afastada de certa forma. No grupo o sentimento de segurança é maior e o sentimento de responsabilidade é menor. Certa vez entrei com uma companhia de soldados numa terrível geleira coberta de névoa espessa. A situação foi tão perigosa que todos tiveram que ficar no lugar onde estavam. Não houve pânico, mas um espírito de festa popular! Se alguém estivesse sozinho ou apenais em dois, a dificuldade da situação não teria sido levada na brincadeira. Os corajosos e experientes tiveram oportunidade de brilhar. Os medrosos puderam valer-se da intrepidez dos mais afoitos e ninguém pensou alto na possibilidade de um bivaque improvisado na ...