State College of Washington
Pullman/EUA, 25 de outubro de 1955.
Prezado Dr. Hilty,
Seu nome "Hilty" é bem conhecido e até mesmo famoso
na Suíça. Agradeço suas perguntas francas, às quais tentarei responder, embora
com muita demora!
1. Sou da Igreja suíço-reformada. Meu pai era pastor. Do lado
materno, tive nada menos que 6 teólogos na família!
2. Considero-me protestante, e muito! Chego a protestar
contra o atraso do protestantismo.
3. Não posso dizer que sigo os ensinamentos da igreja, mas os
levo muito a sério.
4. Não acredito [em um Deus pessoal], mas conheço um poder de
natureza muito pessoal e influência irresistível. Chamo-lhe “Deus”. Uso este
termo porque tem sido usado para este tipo de experiência desde tempos
imemoriais. Deste ponto de vista, quaisquer deuses, Zeus, Votan, Alá, Javé, o
Summum Bonum etc., têm a sua verdade intrínseca. São expressões ou aspectos
diferentes e mais ou menos diferenciados de uma verdade inefável. (Cf. Prefácio
a Resposta a Jó e Psicologia e Religião, Palestras Terry, 1937).
5. Sendo “Deus” a experiência avassaladora - kat exochn (kat exoquen), Ele é um arrhton (arrenton), inefável, além do qual eu
não ousaria fazer nenhuma afirmação, embora eu aceite plenamente a inferência
tradicional desta unicidade absoluta - monothz (monotes) e desta complexio
oppositorum. O uso de tal imagem obviamente inclui a natureza como um aspecto
da Divindade.
6. Não há leis naturais, apenas probabilidades estatísticas,
incluídas em “Deus”.
7. Como não há leis axiomáticas, qualquer suposta “lei”
admite exceções. Nada, portanto, é absolutamente impossível, exceto uma
contradição lógica (contradictio in adiecto).
8. Não sei se Deus está fazendo coisas improváveis.
9. Dentro do alcance da minha experiência, nunca encontrei um
milagre. Portanto, não sei se tais coisas que você menciona são possíveis.
10. Não há prova da existência de Deus. Eu só O conheço como
uma experiência pessoal e subjetiva e indiretamente através do consensus gentium.
11. Esta pergunta é ridícula. Tempo e espaço são categorias
epistemológicas indispensáveis para a descrição de corpos em movimento, mas
incomensuráveis com objetos da experiência interior.
12. Pelo que posso julgar pelos documentos da tradição
cristã, Jesus Cristo foi provavelmente uma pessoa humana definida, porém
altamente envolvida em projeções arquetípicas, mais do que outras figuras
históricas como Buda, Confúcio, Lao-Tsé, Pitágoras, etc. Visto que Cristo
representa uma imagem arquetípica (isto é, a do anqropoz ou uioz tou anqpwpou - antropos ou huios tou antropos) –
homem ou filho do homem - ele é de natureza divina e, portanto, o “filho de
Deus”. (Cf. Resposta a Jó e minha dissertação sobre a psicologia do símbolo
de Cristo em Aion, Cap. V.)
13. Conheço a ressurreição apenas porque é uma ideia
arquetípica muito importante. Não sei se ela já ocorreu como fato físico. Não
vejo sentido em acreditar em algo que não sei. A ressurreição é um mito (como
as questões 14 e 15) e uma das características do herói (isto é, Anthropos),
apontando para a natureza extratemporal, isto é, transcendental, do arquétipo.
(Cf. meu ensaio sobre o dogma da Trindade, OC, vol. XI).
16. Não creio que a mente humana seja eterna e, portanto, não
presumo que possamos pensar em assuntos eternos como infinito, imortalidade,
etc. Só podemos usar essas palavras. Simplesmente não sabemos o que vai
acontecer depois da morte. A única coisa que sabemos com razoável certeza é que
a psique é relativamente independente do tempo e do espaço ou que o tempo e o
espaço (incluindo a causalidade) são relativamente dependentes da psique.
(Vide: Jung e Pauli, A Interpretação da Natureza e da Psique, 1955.)
Outras conclusões a partir desse fato são muito incertas. 17-20. Não nego a
existência de coisas desconhecidas e não presumo acreditar em tais assuntos.
21. “Diabo” é um nome muito apropriado para certos poderes
autônomos na estrutura da psique humana. Como tal, o diabo me parece ser uma
figura muito real.
22-24. Problemas metafísicos insolúveis além do meu alcance.
Como você viu, não pude responder às suas perguntas com um
simples sim ou não, embora preferisse. A questão da religião é infelizmente
mais complicada. Não pode ser reduzida a mera crença ou descrença. Isso só é
verdade para uma confissão ou uma igreja, mas não para a religião, sendo esta
última principalmente uma questão de experiência. Como minhas respostas estão
longe de ser completas, adicionei alguns livros onde você pode obter as
informações necessárias.
Atenciosamente, C. G. Jung.
(1)Palmer A. Hilty, professor de inglês no State College of
Washington (Pullman)
Perguntas feitas por Palmer a Jung:
1.Você tem formação religiosa (Igreja Reformada de Zwingli)?
2. Você ainda pertence a essa igreja?
3. Você ainda segue os ensinamentos dessa ou de qualquer
outra igreja, mais ou menos na sua totalidade?
4. Você acredita em um Deus pessoal?
5. Você acredita em um Deus que seja superior, externo ou
diferente da totalidade da natureza, sendo a natureza o mundo ou mundos
biológicos e físicos completos?
6. Você subordina as leis da natureza à ideia de Deus
(panteísmo do físico)?
7. O Deus em que você acredita, se houver, é capaz de ir
contra as leis da natureza?
8. Ele o faz?
9. Você acredita que milagres, definidos como eventos que
desafiam todas as leis da natureza, já ocorreram? (Ex.: Um homem comeu peixe e
depois passou por uma porta de madeira, andou sobre a água e transformou água
em vinho.)
10. Você considera um sentimento de glória repentina, de
intensa satisfação emocional, de percepção repentina, às vezes chamada de “inspiração”,
como provas da existência de Deus?
11. Onde você acha que Deus existe?
12. Você acredita que Jesus foi um filho de Deus mais do que
Gautama, Sócrates, Albert Schweitzer, Gandhi?
13. Você acredita que Jesus ressuscitou dos mortos?
14. Que ele ascendeu ao céu?
15. Que a Virgem Maria ascendeu corporalmente a um céu “acima”?
16. Você acredita na imortalidade pessoal, ou seja, na
sobrevivência consciente após a morte com a memória de coisas que aconteceram
na Terra?
17. Você acredita na ressurreição da carne, como defendem os
credos cristãos ortodoxos?
18. Você acredita que um corpo ressuscitado irá para o céu?
19. Ou o “espírito”, sem o corpo, irá para o céu?
20. Você acredita em espíritos autoexistentes que descem da
eternidade ou que surgiram há milhões de anos?
21. Você acredita em demônios?
22. Você acredita que o homem, após a morte, enfrentará um
destino duplo, ou seja, um céu para os bons e um inferno para os maus?
23. Os não-cristãos podem chegar a esse céu?
24. Se puderem, sob quais condições?
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