Chicago, Ill./ EUA, julho de 1956.
Prezado Sr. Kristof,
Como o senhor sabe, não sou filósofo, mas sim um empirista;
portanto, meu conceito de inconsciente coletivo não é filosófico, mas empírico.
Designo com esse termo todas as nossas experiências de “padrões de
comportamento”, na medida em que estes sustentam ou provocam a formação de
certas ideias. Por estas últimas, refiro-me a ideias míticas no sentido mais
amplo da palavra, tais como as que podem ser observadas na mitologia e no
folclore, bem como nos sonhos, visões e fantasias de pessoas normais e psicologicamente
doentes. A existência e o surgimento espontâneo de tais ideias,
independentemente da tradição e da migração, permitem inferir a existência de
uma disposição psíquica universal — um instinto — que provoca a formação de
ideias típicas. A disposição ou o “padrão” instintivo é herdado, mas não a
ideia em si; esta consiste em elementos recentes, adquiridos individualmente.
Embora a inferência de uma disposição psíquica universal
desse tipo esteja suficientemente confirmada pela experiência, sinto-me menos
seguro quanto à questão das “ramificações” hereditárias, isto é, diferenciações
específicas condicionadas pela localidade ou pela raça. Parece-me perfeitamente
possível, e até provável, que tais diferenciações realmente existam (como os
insetos sem asas das Ilhas Galápagos), independentemente de preconceitos
teóricos. Contudo, até o momento, não encontrei provas concretas.
Para decidir essa questão, seria necessário empreender
pesquisas muito extensas, que excederiam em muito a minha capacidade. Lamento,
portanto, não poder lhe dar uma resposta clara a esse respeito (1).
O problema da relação de um povo ou cultura com o
inconsciente coletivo nada tem a ver com a questão de sua natureza ou de sua
diferenciação. Tive ampla oportunidade de constatar que os indianos e os
chineses mantêm uma relação com o inconsciente coletivo tão tênue quanto a dos
europeus. Encontra-se uma relação melhor apenas entre os povos primitivos. O
desenvolvimento da consciência ocorre à custa da relação com o inconsciente. Os
povos primitivos desenvolveram diversas técnicas para torná-lo consciente e,
nas culturas [orientais], essas técnicas atingiram um alto grau de
diferenciação. Em nossas culturas modernas altamente desenvolvidas, essas
técnicas estão desaparecendo, e a questão da relação com o inconsciente
coletivo está se tornando obsoleta. Foi apenas a psicologia moderna que retomou
esse problema. Deve-se acrescentar que as religiões, enquanto vivas, jamais
deixaram de promover a relação com o inconsciente, de uma forma ou de outra.
Atenciosamente, C. G. Jung
1) K. perguntou se existiam ramificações hereditárias do inconsciente coletivo universal e se as diferenças individuais entre os diversos povos se deviam a isto.
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