10 de setembro de 1956.
Prezado Sr. Lerch,
Sua pergunta (1) diz respeito a um
daqueles problemas que me intrigam há anos: a conexão entre a psicologia do
inconsciente e as propriedades dos números inteiros, de um lado, e as
propriedades da matéria, de outro. Abordei inicialmente esse problema complexo
sob um ângulo puramente epistemológico. Devo antecipar, aqui, que o termo
“epistemológico” tem um matiz psicológico, pois minha disciplina me obriga a
responder — ou, pelo menos, a levar em conta — a seguinte questão: o que
acontece psicologicamente se eu paro diante da barreira epistemológica ou se
formulo um juízo transcendental? Ocorrem aqui reações psicológicas que o
epistemólogo mal considerou até agora, se é que o fez.
A razão disso é que ele desconhece a
existência de uma psique inconsciente. Portanto, se o meu processo cognitivo
estanca em um ponto ou outro, isso não significa que o processo psicológico
subjacente também tenha parado. A experiência mostra que ele continua,
independentemente disso. Quando o físico, por exemplo, não consegue formar uma
imagem da estrutura do átomo a partir dos dados disponíveis, algo lhe ocorre
subitamente — um modelo, talvez o modelo planetário — como produto de uma
atividade associativa inconsciente.
Esse lampejo ou “intuição” deve ser considerado uma manifestação psíquica — comumente chamada de intuição — e é um produto conjunto dos dados externos e da apercepção psicológica. Sempre que uma mente investigadora se depara com uma obscuridade na qual os objetos são apenas vagamente discerníveis, ela preenche a lacuna com experiências anteriores ou, na falta destas, com material imaginativo — isto é, arquetípico ou mítico. Na construção de teorias físicas, você encontrará, portanto, analogias muito próximas com a psicologia do inconsciente, uma vez que esta também enfrenta as mesmas dificuldades. Nossos fundamentos psíquicos estão envoltos em uma escuridão tão profunda e informe que, assim que tentamos perscrutá-la, ela é imediatamente compensada por formas míticas. Quando essas compensações se tornam óbvias demais, naturalmente tentamos evitá-las e substituí-las por conceitos “lógicos”. Mas isso só se justifica quando esses conceitos realmente expressam adequadamente aquilo que vislumbramos vagamente. Geralmente, não o fazem. Daí que os conceitos limítrofes em ambas as ciências sejam parcialmente mitológicos. Essa seria uma boa razão para um exame — simultaneamente epistemológico e psicológico — de seus conceitos fundamentais.
Infelizmente, não estou em condições de
demonstrar, a partir do lado físico, fatos que tenham conexões ou analogias
claramente discerníveis com os fatos da psicologia. Só posso fazê-lo a partir
do lado psicológico. Em linhas gerais, os átomos podem ser descritos como os componentes
elementares da natureza física. Aqui encontramos uma analogia ainda muito
problemática na psicologia do inconsciente, especificamente no simbolismo do
mandala, expresso em termos medievais como a quadratura circuli. (2) O
modelo para tais configurações baseia-se na autorrepresentação espontânea desse
arquétipo sob forma pictórica. Trata-se de uma estrutura matemática que,
inicialmente, me levou à ideia de que o inconsciente, de alguma forma, se vale
das propriedades dos números inteiros. Para obter maior clareza, tentei compilar
uma lista das propriedades dos números inteiros, começando pelas propriedades
matemáticas conhecidas e incontestáveis. Disso depreende-se que os números
inteiros são indivíduos e que possuem propriedades que não podem ser explicadas
pela suposição de que sejam múltiplas unidades. A ideia de que os números foram
inventados para contar é obviamente insustentável, uma vez que não apenas
preexistem ao juízo, mas possuem propriedades que só foram descobertas ao longo
dos séculos e, presumivelmente, possuem outras tantas que só virão à luz com o
desenvolvimento futuro da matemática.
Como todos os fundamentos internos do
juízo, os números são arquetípicos por natureza e, consequentemente, participam
das qualidades psíquicas do arquétipo. Isso, como sabemos, possui um certo grau
de autonomia que lhe permite influenciar a consciência espontaneamente.
O mesmo deve ser dito dos números, o que
nos remete de volta a Pitágoras. Quando nos deparamos com esse aspecto sombrio
dos números, o inconsciente dá uma resposta; isto é, ele compensa a escuridão
deles com afirmações que chamo de “indispensáveis” ou “inescapáveis”.
O número 1 diz que é um entre muitos. Ao
mesmo tempo, diz que é "o Um". Portanto, é o menor e o maior, a parte
e o todo. Estou apenas sugerindo essas afirmações; se você refletir sobre os
cinco primeiros números dessa maneira, chegará à conclusão notável de que temos
aqui uma espécie de mito de criação que é parte integrante das propriedades
inalienáveis dos números inteiros. Nesse aspecto, o Número revela-se um
elemento fundamental não apenas da física, mas também da psique objetiva.
Seria uma tarefa valiosa para um matemático reunir todas as propriedades conhecidas dos números e também todas as suas afirmações “inescapáveis” — o que deveria ser perfeitamente possível até o número 10 — e, dessa forma, projetar uma imagem biológica dos números inteiros. Para o psicólogo, não é tão simples. Além da questão epistemológica já mencionada, as possibilidades que se lhe apresentam situam-se ainda no nível de experiências elementares. Elas podem ser formuladas da seguinte maneira: quais são as compensações psíquicas quando uma tarefa nos confronta com a escuridão? Aqui, seria necessário, primeiramente, reunir o material pertinente sobre intuições, visões e sonhos.
Não tenho dúvidas de que existem conexões
fundamentais entre a física e a psicologia, e de que a psique objetiva contém imagens
capazes de elucidar o segredo da matéria. Essas conexões são perceptíveis nos
fenômenos de sincronicidade e em sua acausalidade.
Hoje, essas coisas não passam de pálidos
fantasmas, cabendo ao futuro reunir, mediante um trabalho minucioso, as
experiências capazes de lançar luz sobre essa escuridão.
Atenciosamente, C. G. Jung
P.S. Acabo de ver que Rob. Oppenheimer (3)
publicou um artigo² na The American Psychologist (Vol. XI, 3, 1956)
sobre os dados conceituais na física.
(1) Na carta de 12 de agosto de 1956, o
destinatário faz a Jung a seguinte pergunta: “Até que ponto e de que maneira
fatos psíquicos poderiam ser utilizados para a descoberta de novas constatações
na física, ou vice-versa? Em outras palavras: quão forte é, e de que tipo, o
vínculo entre psique e físico (physis)?”
(2)Figura de um círculo dividido em quatro
partes, ou um quadrado circunscrito por um círculo, a forma primitiva do
mandala. Para maior esclarecimento, confira “História e psicologia de um
símbolo natural”, em Psicologia da religião ocidental e oriental, OC 11.
(3) J. Robert Oppenheimer (1904-1967),
físico nuclear norte-americano; diretor do Laboratório de Los Alamos entre 1943
e 1945; presidente do comitê consultivo da Comissão de Energia Atômica dos EUA
entre 1946 e 1952. O artigo intitula-se “Analogy in Science” (Analogia
na Ciência), sendo originalmente uma palestra proferida em uma reunião da
Associação Americana de Psicologia em São Francisco, em setembro de 1955.
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