Agosto de 1956.
Prezado Dr. Murray,
Muito obrigado por sua gentil
carta. É um grande prazer para mim ter notícias suas depois de tanto tempo.
Agradeço também pelos seus votos de feliz aniversário. — Minha correspondência
com Freud não será publicada num futuro próximo. Terá de esperar até que eu
deixe estas instalações definitivamente.
Interessa-me muito saber que o
senhor está ministrando palestras sobre a minha psicologia.
Fico feliz em saber do sucesso
que tem obtido ao proferir suas palestras. Parece ser um assunto extremamente
difícil, algo de que eu não me dera conta enquanto escrevia meus livros.
É verdade que a Bollingen Press
relutou quanto à publicação de minha obra Resposta a Jó. Eles temiam que
ela provocasse ainda mais preconceito e indignação contra minhas ideias não
convencionais. Este é mais um dos meus livros que exige uma reflexão cuidadosa.
Sempre desejei conhecer o Prof.
Tillich, mas nunca encontrei oportunidade para isso.
Suas perguntas sobre “individuação”
e “indivíduo” são profundamente filosóficas e impressionantes. É perfeitamente
verdade que nunca descrevi uma “pessoa individuada”, pela simples razão de que
ninguém compreenderia por que descrevo tal caso, e a maioria dos meus leitores ficaria
mortalmente entediada. Além disso, não sou um poeta tão grande a ponto de poder
produzir um retrato que realmente valha a pena. Um gênio como Goethe ou Shakespeare
poderia esperar ser capaz de descrever a beleza majestosa e a plenitude divina
de um velho carvalho individuado, ou a singularidade grotesca de um cacto. Mas,
se um cientista se arriscasse a fazer o mesmo, ninguém compreenderia ou
apreciaria. A ciência preocupa-se apenas com a ideia média de um carvalho, de
um cavalo ou do homem, mas não com a sua singularidade. Ademais, é praticamente
impossível descrever um ser humano individuado, pois não temos um ponto de
vista fora da esfera humana. Assim, não sabemos o que é o homem. Podemos apenas
dizer que ele não é animal, nem planta, nem cristal; mas o que ele é, é
impossível dizer. Precisaríamos de um conhecimento íntimo dos habitantes de outros
planetas — na medida em que possam ser comparados aos seres humanos — para
podermos formar alguma ideia do que é o ser humano. Do ponto de vista da
ciência, o indivíduo é insignificante ou uma mera curiosidade. Do ponto de
vista subjetivo, porém — isto é, do ponto de vista do próprio indivíduo —, ele
é de suma importância, pois é o portador da vida, e seu desenvolvimento e
realização são de significado primordial.
É vital para cada ser vivo
tornar-se sua própria enteléquia e desenvolver-se naquilo que foi desde o
início. Essa necessidade vital e indispensável de cada ser vivo significa muito
pouco ou nada de um ponto de vista estatístico, e ninguém de fora pode estar
seriamente
interessado no fato de que o Sr.
X venha a ser um bom empresário ou de que a Sra. Y venha a ter seis filhos. O
ser humano individuado é apenas comum e, portanto, quase invisível.
Necessariamente, todos os critérios de individuação são subjetivos e estão fora
do escopo da ciência.
Você pergunta: que sentimentos
ele tem e quais são seus valores, pensamentos, atividades e relações com o
ambiente ao seu redor? Bem, seus sentimentos, pensamentos, etc., são como os de
qualquer pessoa — bastante comuns, na verdade, e nada interessantes, a menos
que você por acaso esteja particularmente interessado nesse indivíduo e em seu
bem-estar. Ele ficará bem se conseguir realizar-se tal como era desde o início.
Não precisará ser exagerado, hipócrita, neurótico ou qualquer outro tipo de
incômodo. Ele estará “em modesta harmonia com a natureza”.
Como diz o Budismo Zen:
primeiro, as montanhas são montanhas e o mar é o mar. Então, as montanhas
deixam de ser montanhas, o mar deixa de ser o mar e, no final, as montanhas
serão as montanhas e o mar será o mar. (2)
Ninguém pode ter uma visão e não
ser transformado por ela. Primeiro, ele não tem visão e é o homem A; depois, é ele
mesmo mais uma visão = o homem B; e então pode ser que a visão influencie sua
vida — se ele não for totalmente obtuso —, resultando no homem C.
Não importa se as pessoas acham
que são individuadas ou não; elas são simplesmente o que são: num caso, um
homem mais um incômodo inconsciente que o perturba — ou, sem isso, inconsciente
de si mesmo ou, no outro caso, consciente. O critério é a consciência.
O homem com neurose que sabe que
é neurótico é mais individuado do que o homem sem essa consciência. O homem que
é um tremendo incômodo para quem o cerca e sabe disso é mais individuado do que
aquele que é alegremente inconsciente de sua natureza,
etc. — O ponto de vista
científico é útil para muitas coisas. No caso da individuação — embora tenha
certa importância auxiliar —, na questão decisiva ele não significa
absolutamente nada. Se um homem entra em contradição consigo mesmo e não sabe
disso, ele é um ilusionista; mas se sabe que se contradiz, ele é individuado.
Segundo Schopenhauer, a única qualidade divina do homem é o seu humor. Se o
Papa tem humor, ou se Albert Schweitzer sabe que fugiu do problema europeu, ou
se Winston Churchill tem consciência de quão insuportável e autoritário pode
ser, então eles são, nesse aspecto, individuados. Mas certamente ninguém se
interessa muito por essa sutileza altamente subjetiva, a menos que seja
psicólogo ou alguém farto de sua própria inconsciência.
Esperando que goze sempre de boa
saúde, despeço-me, com cordiais saudações a Christiana,
Cordialmente, C. G. Jung
(1) Paul Johannes Tillich
(1886-1965), teólogo protestante alemão e filósofo da religião; demitido pelos
nazistas em 1933, radicou-se posteriormente nos EUA. Sua obra mais importante é
Teologia Sistemática (I, 1953; II, 1957).
(2) Prefácio à Introdução ao
Budismo Zen, de Suzuki, OC 11, par. 884, n. 11.
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