1º de setembro de 1956.
Prezado Sr. Evans, (1)
Agradeço por me contar sobre seu sonho
interessante.1 O sonho é bastante notável em sua simplicidade. É o que os povos
primitivos chamariam de “grande sonho”. Sua tentativa de interpretação não está
errada, mas é algo secundário, embora importante em si mesmo. A imagem
essencial do sonho — o Homem, a Árvore, a Pedra — parece bastante inacessível,
mas apenas para a nossa consciência moderna que, via de regra, é inconsciente
de suas raízes históricas.
A primeira coisa que eu faria em tal caso
é o seguinte: tentaria estabelecer a relação do simbolismo com seus antecedentes
históricos, isto é, com as ideias idênticas que desempenharam um papel no
passado imediato ou remoto. Tome o primeiro item: o Homem. O Homem leva você
diretamente à Bíblia. Lá, o Homem é Adão; depois, há o “Filho do Homem”, que é
Cristo. Em seguida, temos a ideia do Homem Primordial tal como aparece na
Cabala: Adam Kadmon, e a figura do Anthropos, descrito por Ezequiel,
Daniel e no Livro de Enoque.
Essa ideia do Homem desempenhou um papel
considerável durante toda a Idade Média e até o século XVIII na filosofia
alquímica. O mesmo vale para os outros dois itens: a Árvore e a Pedra. A Pedra
ainda está viva na Maçonaria. Para mais informações, aconselho que estude meu
livro Psicologia e Alquimia, onde você pode encontrar farto material
sobre esses três símbolos.
Também dediquei um estudo especial ao
símbolo da Árvore, mas ele ainda não foi publicado em inglês. (2) O fato
interessante é que, de forma totalmente independente da tradição, esses
símbolos se reproduzem nos sonhos de muitos indivíduos modernos. Eles são
expressões de arquétipos latentes herdados desde tempos imemoriais. A
característica mais marcante do arquétipo é ser numinoso; isto é, ele possui
uma espécie de carga emocional que se apodera da consciência sempre que ocorre
uma imagem ou situação arquetípica. Isso explica a impressão bastante inusitada
que o sonho lhe causou.
O Homem refere-se ao Homem como ele era no
princípio e/ou como deveria ser no futuro: o Homem completo ou total.
A Árvore expressa o desenvolvimento, o
crescimento a partir de raízes ocultas. A evolução em direção à totalidade.
A Pedra significa — particularmente na
forma da Pedra Filosofal — a conquista da totalidade e da imutabilidade, das
quais a Pedra é um símbolo muito apropriado. Assim como Adão (3), segundo
certas tradições, foi criado na forma de uma estátua sem vida, também o segundo
Adão — isto é, o Homem total — tornar-se-á uma pedra, porém viva, como se diz
no Novo Testamento: transmutemini in vivos lapides. (4)
Os três símbolos do seu sonho formam os
capitéis de colunas, como
títulos, sugerindo que as colunas vazias
ainda precisam ser preenchidas com conteúdo.
O tema geral é claro. Pode ser formulado
nas seguintes perguntas: o que é o Homem? qual é o caminho do seu
desenvolvimento? qual é o seu objetivo? — A psicologia do inconsciente tem
muito a dizer
em termos de respostas. Meu livro Psicologia
e Alquimia ou meu pequeno ensaio Psicologia e Religião podem lhe dar
pistas nessa direção.
Você tem toda a razão ao supor que essas
questões têm, de alguma forma, relação com a matemática — isto é, com a teoria
dos números —, mas, antes de tudo, é o simbolismo dos números que precisa ser
compreendido.
Você tem razão ao identificar o Homem com
o 3, ou a Pedra com o 5, se pensar neste último como um quincunx (5) e
não como uma série de unidades numéricas. O 4, como Árvore, significa o
desdobramento do Um em 3, visto que o Homem (Anthropos) é a manifestação
visível do Um original, isto é, de Deus.
O fato é que os números preexistentes na
natureza são, presumivelmente, os arquétipos mais fundamentais, constituindo a
própria matriz de todos os outros. Nesse ponto, Pitágoras estava certamente no
caminho certo, e nós, homens modernos, esquecemos esse aspecto dos números
preexistentes porque nos ocupamos apenas em manipular números para fins de
contagem e cálculo. Mas o Número é um fator preexistente ao homem, com qualidades
imprevistas ainda a serem descobertas por ele.
Esperando que isso possa lançar alguma luz
sobre o seu sonho, subscrevo-me,
Atenciosamente, C. G. Jung
(1) Evans, descrevendo-se como professor,
feliz no casamento e com 43 anos, relatou um sonho no qual via um livro com o
título “A Filosofia da Analogia e do Simbolismo”. O livro era “sábio,
profundo e lúcido”, ao contrário de um livro real com esse título que ele
considerava ‘tolo e confuso”. O livro do sonho estava aberto “em algum ponto das
últimas páginas” e ele conseguia ver três colunas paralelas, não preenchidas, com
os cabeçalhos: “O Homem”, “A Árvore”, “A Pedra”. Ele identificou o homem com o
número 3, a árvore com o 4, a pedra com o 5, e acrescentou certas especulações
numéricas.
(2) “A Árvore Filosófica”, OC 13.
(3) Conforme Mysterium, OC 14, parágrafos
559 e seguintes.
(4) A citação não provém diretamente do
NT, que traz em 1 Pedro 2:5: “Sede vós também como pedras vivas edificadas”. É
uma combinação disso com a máxima do alquimista Gerhard Dorn: “transmutemini
in vivos lapides philosophicos” (transformem-se em pedras filosofais
vivas). Conforme: Psicologia e Alquimia, OC 12, par. 378; Psicologia
e Religião, OC 11, par. 154.
(5) Uma disposição dos quatro pontos
cardeais mais um quinto ponto central.
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