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Para Patrick Evans

1º de setembro de 1956.

Prezado Sr. Evans, (1)

Agradeço por me contar sobre seu sonho interessante.1 O sonho é bastante notável em sua simplicidade. É o que os povos primitivos chamariam de “grande sonho”. Sua tentativa de interpretação não está errada, mas é algo secundário, embora importante em si mesmo. A imagem essencial do sonho — o Homem, a Árvore, a Pedra — parece bastante inacessível, mas apenas para a nossa consciência moderna que, via de regra, é inconsciente de suas raízes históricas.

A primeira coisa que eu faria em tal caso é o seguinte: tentaria estabelecer a relação do simbolismo com seus antecedentes históricos, isto é, com as ideias idênticas que desempenharam um papel no passado imediato ou remoto. Tome o primeiro item: o Homem. O Homem leva você diretamente à Bíblia. Lá, o Homem é Adão; depois, há o “Filho do Homem”, que é Cristo. Em seguida, temos a ideia do Homem Primordial tal como aparece na Cabala: Adam Kadmon, e a figura do Anthropos, descrito por Ezequiel, Daniel e no Livro de Enoque.

Essa ideia do Homem desempenhou um papel considerável durante toda a Idade Média e até o século XVIII na filosofia alquímica. O mesmo vale para os outros dois itens: a Árvore e a Pedra. A Pedra ainda está viva na Maçonaria. Para mais informações, aconselho que estude meu livro Psicologia e Alquimia, onde você pode encontrar farto material sobre esses três símbolos.

Também dediquei um estudo especial ao símbolo da Árvore, mas ele ainda não foi publicado em inglês. (2) O fato interessante é que, de forma totalmente independente da tradição, esses símbolos se reproduzem nos sonhos de muitos indivíduos modernos. Eles são expressões de arquétipos latentes herdados desde tempos imemoriais. A característica mais marcante do arquétipo é ser numinoso; isto é, ele possui uma espécie de carga emocional que se apodera da consciência sempre que ocorre uma imagem ou situação arquetípica. Isso explica a impressão bastante inusitada que o sonho lhe causou.

O Homem refere-se ao Homem como ele era no princípio e/ou como deveria ser no futuro: o Homem completo ou total.

A Árvore expressa o desenvolvimento, o crescimento a partir de raízes ocultas. A evolução em direção à totalidade.

A Pedra significa — particularmente na forma da Pedra Filosofal — a conquista da totalidade e da imutabilidade, das quais a Pedra é um símbolo muito apropriado. Assim como Adão (3), segundo certas tradições, foi criado na forma de uma estátua sem vida, também o segundo Adão — isto é, o Homem total — tornar-se-á uma pedra, porém viva, como se diz no Novo Testamento: transmutemini in vivos lapides. (4)

Os três símbolos do seu sonho formam os capitéis de colunas, como

títulos, sugerindo que as colunas vazias ainda precisam ser preenchidas com conteúdo.

O tema geral é claro. Pode ser formulado nas seguintes perguntas: o que é o Homem? qual é o caminho do seu desenvolvimento? qual é o seu objetivo? — A psicologia do inconsciente tem muito a dizer

em termos de respostas. Meu livro Psicologia e Alquimia ou meu pequeno ensaio Psicologia e Religião podem lhe dar pistas nessa direção.

Você tem toda a razão ao supor que essas questões têm, de alguma forma, relação com a matemática — isto é, com a teoria dos números —, mas, antes de tudo, é o simbolismo dos números que precisa ser compreendido.

Você tem razão ao identificar o Homem com o 3, ou a Pedra com o 5, se pensar neste último como um quincunx (5) e não como uma série de unidades numéricas. O 4, como Árvore, significa o desdobramento do Um em 3, visto que o Homem (Anthropos) é a manifestação visível do Um original, isto é, de Deus.

O fato é que os números preexistentes na natureza são, presumivelmente, os arquétipos mais fundamentais, constituindo a própria matriz de todos os outros. Nesse ponto, Pitágoras estava certamente no caminho certo, e nós, homens modernos, esquecemos esse aspecto dos números preexistentes porque nos ocupamos apenas em manipular números para fins de contagem e cálculo. Mas o Número é um fator preexistente ao homem, com qualidades imprevistas ainda a serem descobertas por ele.

Esperando que isso possa lançar alguma luz sobre o seu sonho, subscrevo-me,

Atenciosamente, C. G. Jung

 

(1) Evans, descrevendo-se como professor, feliz no casamento e com 43 anos, relatou um sonho no qual via um livro com o título “A Filosofia da Analogia e do Simbolismo”. O livro era “sábio, profundo e lúcido”, ao contrário de um livro real com esse título que ele considerava ‘tolo e confuso”. O livro do sonho estava aberto “em algum ponto das últimas páginas” e ele conseguia ver três colunas paralelas, não preenchidas, com os cabeçalhos: “O Homem”, “A Árvore”, “A Pedra”. Ele identificou o homem com o número 3, a árvore com o 4, a pedra com o 5, e acrescentou certas especulações numéricas.

(2) “A Árvore Filosófica”, OC 13.

(3) Conforme Mysterium, OC 14, parágrafos 559 e seguintes.

(4) A citação não provém diretamente do NT, que traz em 1 Pedro 2:5: “Sede vós também como pedras vivas edificadas”. É uma combinação disso com a máxima do alquimista Gerhard Dorn: “transmutemini in vivos lapides philosophicos” (transformem-se em pedras filosofais vivas). Conforme: Psicologia e Alquimia, OC 12, par. 378; Psicologia e Religião, OC 11, par. 154.

(5) Uma disposição dos quatro pontos cardeais mais um quinto ponto central.

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