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Mensagens

To Father Victor White

  Oxford, 09-14 de abril de 1952. Parkhotel Locarno   Dear Victor, Muito obrigado por sua carta tão humana (1). Ela me dá uma ideia do que vai no seu interior. A “privatio boni” não me parece especialmente problemática, mas entendo que ela é da maior importância. Talvez seja melhor que eu continue expondo o meu ponto de vista, para que o senhor saiba como eu vejo a questão. Procurei, ao mesmo tempo, levar em consideração também o seu ponto de vista. Penso que o senhor concorda comigo que, dentro de nosso mundo empírico, o bem e o mal representam as partes indispensáveis de um julgamento lógico, assim como branco e preto, direito e esquerdo, em cima e embaixo, etc. São equivalentes de oposição, e entende-se que sempre se referem à situação de quem faz a afirmação, uma pessoa ou uma lei. Empiricamente são incapazes de confirmar a existência de qualquer coisa absoluta, isto é, não há meios lógicos para estabelecer uma verdade absoluta, com exceção de uma tautologia. E assim mesmo...

To Father Victor White

Oxford, primavera de 1952 (1) pro tempore Locarno, Parkhotel   Dear Victor, Muito obrigado pelas separatas! O senhor esteve certamente muito ocupado. Li todas e acho especialmente boa aquela sobre “The ding God” (2). O ensaio sobre Freud (3) é perspicaz e bem imparcial. Sua meditação sobre a via-sacra nada contém que eu não possa subscrever. É psicologicamente “correta”. Isto é um cumprimento sincero. Estes artigos constarão do livro que pretende escrever? (4) Espero que tenha recebido o meu livro Resposta a Jó (5). Tive um tempo atribulado no mês de março por causa de uma gripe, da qual me recupero lentamente. Viajei para cá a fim de descansar. Apesar do sol, o ar ainda está bem frio e com muito vento. Terminei o último capítulo, tão temido, de meu Mysterim Coniunctionis (6). Ele me derrubou, e minha cabeça está cansada. Bem, estou chegando aos 78 anos de idade, e queixar-se é inútil. Meu próximo objetivo será uma contemplação minuciosa da vida espiritual de lagartos...

To Mr. C. H. Josten

To Mr. C. H. Josten (1) Curator of the Ashmolean Museum Oxford, 06 de abril de 1952.   Dear Sir, Muito obrigado por me deixar ver os sonhos de Ashmole (2). Uma série dessas é realmente única. É preciso retroceder até o século terceiro depois de Cristo para encontrar algo semelhante, ou seja, as visões-sonhos de Zósimo de Panópolis. Estes são induvitavelmente alquimistas, ao passo que os sonhos de Ashmole nada têm de alquimistas, ao menos numa visão superficial. Mas são de grande interesse enquanto contêm um problema que era de muita importância na geração imediatamente anterior ao tempo de Ashmole: o chamado “mysterium coniunctionis”, apresentado no documento literário de Christian Rosencreutz, Chymische Hochzeit , 1616. Constitui também o fundamento de Fausto , de Goethe, e um dos itens mais importantes da “Speculativa Philosophia”, de Gerardo Dorneo (final do século XVI, impresso em Theatrum Chemicum (3), vol. I, 1602). O “mysterium” alcança seu ápice no sonho de 29 ...

To Dr. John R. Smythies

Londres, 29 de fevereiro de 1952.   Dear Dr. Smythies, Não me atrevo a escrever uma carta ao editor do Journal of the S. P. R., como o senhor sugere (2). Receio que meu inglês seja muito pobre, sem boa gramática e muito coloquial. Entre filósofos muito letrados e ilustres a minha argumentação simples não faria boa figura. Além disso, sei por experiência que os filósofos não entendem minha linguagem inculta. Portanto, se me permite, prefiro escrever uma carta ao senhor e deixá-lo à vontade para fazer dela o que achar mais conveniente. Quanto à sua hipótese, eu já lhe disse que me agrada muito a sua ideia de um corpo perceptivo, isto é, “sutil” (3). Seu ponto de vista parece-me bastante confirmado pelo fato peculiar de que, por um lado, a consciência tem muito pouca informação direta sobre o corpo a partir de dentro e que, por outro lado, o inconsciente (isto é, sonhos e outros produtos do “inconsciente”) se refere muito raramente ao corpo e, quando o faz, é sempre através de...

Ao Dr. Erich Neumann

Tel Aviv/Israel, 28 de fevereiro de 1952. Prezado Neumann! Eu já devia ter-lhe escrito há mais tempo, mas nesse ínterim tive de baixar outra vez ao leito por causa de uma gripe. Aos 77 anos de idade, isto não é uma coisa muito simples, pois é “facilis descensus Averno” (1), mas difícil “revocare gradum”, isto é, os motivos da volta perdem aos poucos sua plausibilidade. Hoje é o primeiro dia em que estou de novo de pé e escrevo-lhe como se costuma fazer num mundo tridimensional. Quero dizer-lhe francamente que gostei muito de seu Amor und Psyche (2). É brilhante e escrito com a mais veemente participação . Acredito entender agora por que, seguindo Apuleio, o senhor deixou que se desenrolasse o destino de Psique e de sua feminilidade nas praaias distantes do primitivo mundo dos heróis. Com o maior escrúpulo e com lapidar precisão o senhor mostrou como este drama, enraizado num mundo primitivo, anônimo e afastado de qualquer capricho pessoal, desenrola-se diante de nossos olhos de fo...

To Dr. Ernest Jones

Elsted nr. Midhurst, Sussex/Inglaterra, 22 de fevereiro de 1952.   Dear Jones, As cartas de Freud em meu poder não são de importância especial. Contêm principalmente observações sobre editores ou sobre a organização da Sociedade Psicanalítica. E algumas outras são muito pessoais. Nada tenho contra a sua publicação. Em seu conjunto, não seriam uma contribuição importante para a biografia de Freud. Por outro lado, minhas recordações pessoais constituem um capítulo a parte. Elas têm muito a ver com a psicologia de Freud, mas, como não há outra testemunha além de mim, prefiro abster-me de narrativas não substanciais sobre o falecido. Esperando que entenda meus motivos, permaneço Very truly yours, C. G. Jung. (1) Ernest Jones, M. D., 1878-1958, psicanalista da “American Psychoanalytical Association” e da “Britsh Psychoanalytical Society” (1913). Autor de Sigmund Freud, Life and Work, 3 vols., Londres 1953-1957. Em 1920 fundou o International Journal of Psycho-Analysis e...

To Mr. J. Wesley Neal

Long Beach (Calif.)/ EUA, 09 de fevereiro de 1952.   Dear Sir, Não é fácil responder à sua pergunta sobre a “ilha da paz”. Parece-me que possuo uma porção delas, uma espécie de arquipélago de paz. Algumas das ilhas principais são: meu jardim, a vista das montanhas longínquas, minha casa de campo para onde vou quando quero fugir do barulho da vida na cidade, minha biblioteca. Também coisas pequenas, como livros, quadros e pedras. Quando estive na África, o guia do meu safári, um somali muçulmano, contou-me o que seu chefe de tribo lhe havia ensinado sobre o Chadir: “Ele pode aparecer-lhe como uma luz sem chama e sem fumaça, ou como um homem na estrada, ou como uma folhinha de capim”. Espero que isto responda à sua pergunta. Yours sincerely, C. G. Jung. JUNG, C. G. Cartas: 1946-1955. Vol. 2. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 215. Foto: Jardim da casa de C. G. Jung