Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Hélène Kiener

À Hélène Kiener (Estrasburgo/França),  13 de agosto de 1949. Prezada senhorita Kiener, No meu ensaio “O espírito da psicologia” (Eranos-Jahrbuch 1946) (1) demonstrei, com auxílio de material histórico, que o inconsciente coletivo foi comparado simbolicamente ao céu estrelado – especialmente por Paracelso. Neste ensaio dediquei um capítulo inteiro ao inconsciente como “consciência múltipla”. É impossível repetir-lhe este capítulo  inteiro. Sugiro que mande vir, por intermédio da biblioteca da Universidade de Estrasburgo, este ensaio que está na biblioteca de Basileia. Eu, infelizmente, não possuo nenhum exemplar dele. A fundamentação de uma analogia efetiva entre inconsciente e cosmos é uma tarefa praticamente impossível. Também não se pode afirmar a suposta organização planetária em torno do núcleo do átomo, pois é apenas uma imagem contestável pela qual certos físicos ilustraram a relação matemática entre os elétrons e o núcleo do átomo. Uso a mesma imagem para explica...

Virginia Payne

To Virginia Payne Madison (Wisconsin) EUA,  23 de julho de 1949. Dear Miss Payne, Lembro-me bem da Clark Conference de 1909 (1). Foi minha primeira visita aos Estados Unidos e por isso as recordações são muito nítidas, ainda que os detalhes da Conference tenham desaparecido quase por completo. Mas recordo alguns incidentes. Viajei no mesmo navio com o Professor Freud, que também fora convidado, e lembro-me muito bem de nossa discussão sobre suas teorias. Analisamos sobretudo os nossos sonhos durante a viagem, durante nossa estadia na América e na viagem de volta. O Professor William Stern (2), Breslau, estava no mesmo navio, mas Freud não se entusiasmou muito com a presença de um psicólogo acadêmico. Não é de admirar, porque sua posição de pioneiro na Europa não era nada invejável. Ainda hoje simpatizo com os sentimentos negativos deles, pois também eu experimentei o mesmo destino por mais de 30 anos. Duas personalidades que encontrei na Clark Conference causaram-m...

Marcus Fierz

"Ao Prof. Markus Fierz* Basileia,  22 de junho de 1949. Prezado senhor Fierz, Li com muito interesse o seu grande trabalho no Eranos-Jahrbuch (1). Achei-o estimulante ao extremo. Mas, dirijo-me ao senhor por outro motivo: envio-lhe anexo um manuscrito que Pauli me animou a escrever (2). É uma reunião de minhas ideias sobre o tema da sincronicidade. Como atualmente os físicos são os únicos capazes de trabalhar com sucesso estas ideias, espero encontrar num físico a compreensão crítica de meu trabalho, ainda que o fundamento empírico pareça estar totalmente do lado dos fenômenos psíquicos. Ficaria muito grato se tivesse a gentileza de examinar criticamente a linha de meu pensamento. Toda e qualquer crítica será bem recebida. Trata-se infelizmente de um campo bem difícil e obscuro, onde a razão facilmente pode tropeçar. Mas como este problema me parece de importância capital, nada gostaria de omitir que pudesse ajudar a discussão. Espero não tomar muito de seu precioso tempo ...

Armin Kesser

"A Armin Kesser (1) Zurique,  18 de junho de 1949. Prezado senhor Kesser, Queria manifestar-lhe o meu sincero agradecimento por sua gentil recensão de meu livro Symbolik des Geistes (2). O senhor conseguiu apresentar este material difícil de forma tal que o leitor pode ter uma visão real de minhas ideias. Gostaria apenas de chamar sua atenção para uma pequena discrepância: na perspectiva psicológica, não se pode designar o conceito do si-mesmo como summum bonum. Eu nunca fiz isso em parte alguma. Seria uma contradictio in adiecto, uma vez que, por definição, o si-mesmo representa uma união virtual de todos os opostos. Nem no sentido metafórico podemos designá-lo como summum bonum, pois ele não é um summum deisderatum, mas antes uma dira necessitas que assim é caracterizado por todas as qualidades desagradáveis. A individuação é tanto fatalidade quanto realização. A psicologia do si-mesmo não é filosofia, mas um processo empiricamente constatável que, enquanto processo natu...

A um destinatário não identificado

" Suíça,  25 de abril de 1949 Prezado colega! Examinei sem profundidade o seu ensaio simbológico (1). O senhor tem boas ideias, mas falta-lhe disciplina e método científico, que são de grande importância sobretudo neste campo. Sem essas qualidades o senhor vai à deriva e não chega a resultados confiáveis. Então o assunto torna-se psicologicamente perigoso, pois o material simbólico constela o seu inconsciente; e se então o senhor não tratar o seu material de acordo com regras científicas estritas, mas apenas farejar analogias intuitivas, o seu inconsciente se dissolve ao invés de sintetizar-se. Devo alertá-lo para este perigo. Eu o aconselharia a selecionar uma determinada questão, por exemplo a configuração dos números de 0 a 9 na forma romana ou arábica, e estudar este problema com exatidão científica, evitando qualquer digressão. Recomendaria ao senhor que entrasse em contato com a Dra. R. Schärf (2) no Instituto, para que ela lhe dê as necessárias indicações metodol...

Christian Stamm (Gächlingen – Schaffhausen)

“23 de abril de 1949. Prezado senhor, Muito obrigado por sua amável carta. Gostaria de responder às suas perguntas (1) do seguinte modo: É melhor não querer afrouxar o inconsciente, mas “uma dose moderada, por ninguém será vedada” é um dito sacrossanto desde tempos imemorais. Vinho=filho da terra (Cristo, a videira, e Dioniso, o vinho, na Índia, soma). Não sei como um cego sonha as mandalas. As mandalas também são moldadas pelas mãos, dançadas e representadas na música (por exemplo, A arte da fuga de Bach; morreu enquanto trabalhava nela). Quando uma mandala é formada, tudo o que a pessoa conhece de redondo e quadrado atua junto também. Mas o impulso para essa conformação é dado pelo arquétipo inconsciente em si. Todo ser vivo sonha com individuação, pois tudo procura sua própria totalidade. Isto nada tem a ver com raça e outras coisas. Existem sonhos típicos, mas não tipos oníricos, pois o inconsciente coletivo não é um tipo, mas contém tipos, isto é, os arquétipos. O ...

Aniela Jaffé (Zurique)

Carta à Aniela Jaffé (Zurique) “Bollingen,  12 de abril de 1949. Prezada Aniela, (...) Sua carta chegou num período de reflexões difíceis. Infelizmente nada lhe posso falar a respeito. Seria demais. Também eu ainda não cheguei ao final do caminho do sofrimento. Trata-se de compreensões difíceis e penosas (1). Após longo vagar no escuro, surgiram luzes mais claras, mas não sei o que significam. Seja como for, sei por que e para que preciso da solidão de Bollingen. É mais necessária do que nunca. (...)            Eu a parabenizo pela conclusão de “Séraphita” (2). Ainda que não tivesse aproveitado em nada a Balzac desviar-se do si-mesmo, gostaríamos de poder fazê-lo também. Sei que haveríamos que pagar mais caro por isso. Gostaríamos de ter um Javé Sabaoth como kurioz twn daimonwn (3). Compreendo sempre mais porque quase morri e vejo-me forçado a desejar que assim tivesse sido. O cálice é amargo. Saudações cordiai...