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Mensagens

Regula Rohland-Oeri

  À senhora Regula Rohland (1)   Riehen na Basileia, 23 de dezembro de 1950.   Prezada Regula! Quero expressar-lhe os meus pêsames pela morte de seu pai. Quando as forças falham, a participação na vida significa esforço e um grande cansaço cobre tudo, então a morte significa o benefício do sono. Uma vez que o mundo desapareceu, não se quer mais vê-lo surgir de novo. Somente nós, os vivos, somos alguém que perdemos alguma coisa e lamentamos esta perda. Tudo passa, e os túmulos são as mós da existência. Para os jovens, a morte dos pais abre novo capítulo da vida. Eles são agora os portadores da vida e do presente, e nada mais paira sobre eles do que um destino ainda não realizado. Para isso desejo-lhe toda a coragem necessária. Cordialmente, C. G. Jung.   (1) A senhor Regula Rohland-Oeri, nascida em 1912, era a terceira filha do Dr. Albert Oeri, amigo de Jung.

Hanna Oeri

  À Hanna Oeri (1)   Basileia, 23 de dezembro de 1950.   Prezada Doutora, O grande cansaço que vi e senti em meu amigo por ocasião de minha última visita a Basileia o levou rapidamente ao fim. Não se deve lamentar os falecidos – eles levam grande vantagem sobre nós – mas deve-se lamentar antes os que ficaram, que precisam contemplar a fugacidade da existência e suportar a despedida, a dor e a solidão. Sei o que significa para a senhora a morte de Albert, pois com ele partiu também o meu último amigo que ainda estava vivo. Nós somos uma sobra do tempo que passou e isto cada vez mais, a cada novo ano. O olhar se desvia do futuro do mundo dos homens no qual viverão os nossos filhos, mas não nós. Invejável é o destino daqueles que ultrapassaram o limiar, mas a minha empatia está com aqueles que precisam continuar seguindo o rio de seus dias, cumprindo a tarefa da existência na escuridão do mundo, num horizonte acanhado e na cegueira da ignorância, para ver toda sua existência...
  Para o Pe. Victor White   Oxford   25 de novembro de 1950   Dear Victor, Agradeço penhoradamente a gentileza de me enviar um exemplar de The Life of the Spirit . Li o seu artigo (1) com a maior atenção e interesse. O senhor conseguiu pôr em máxima evidência a petra scandali (2). Como sabe, não tenho muito a dizer sobre o “universale” (3), se me abstiver de tirar conclusões e fazer especulações sobre possíveis consequências psicológicas do novo dogma. É um assunto fascinante, muito discutido em Zurique. Provocou em mim uma série de sonhos ligados a desenvolvimentos ulteriores, isto é, consequências da nova situação. Contrariamente à minha expectativa, a declaração mexeu com algo no inconsciente, ou seja, no mundo arquetípico. Parece ser o motivo do hierosgamos; a árvore derrubada foi trazida para dentro da gruta da mãe, neste caso: o bojo de um navio. Ela ocupa tanto espaço que as pessoas que moram na gruta são obrigadas a sair e viver do lado de fora...
  Monsieur Le Docteuer Ch. Lichtenthaeler (1)   Leysin/Suíça 07 de novembro de 1950 Monsieur et cher Collègure, Ainda que interesse aos psicólogos também a personalidade singular de Paracelso, a psicologia se ocupa principalmente com suas ideias. Eu mesmo escrevi um livro sobre suas ideias principais. Entre elas está a ideia da “theorica”, de especial interesse para a psicologia (2). Através da “theorica”, Paracelso transmite ao paciente uma noção de sua doença, dando-lhe assim a possibilidade de assimilá-la psiquicamente. Além disso, é possível encontrar na doutrina esotérica de Paracelso um conhecimento exato dos processos inconscientes de doenças, bem como a compreensão de formas simbólicas que são de grande importância como expressão de conteúdos patogênicos, sobretudo para a terapia das neuroses. Paracelso desenvolveu essas ideias em sua Vita Longa . Ele transmitiu o conhecimento desses pressupostos inconscientes aos seus alunos (sobretudo o Gerardo Dorneo); c...

Ao Dr. Ernesto A. C. Volkening

  Ao Dr. Ernesto A. C. Volkening   Bogotá, Colômbia   19 de agosto de 1950.   Prezado colega, Muito obrigado por seus votos de felicidade e por sua separata. Infelizmente não tenho grande familiaridade com a língua espanhola, mas pedirei a alguém para ler o seu trabalho e fazer um relato para mim. Seu debate com a orientação freudiana merece espaço bem amplo, pois a simplificação que faz a psique coincidir com um instinto tão importante quanto o sexual tem algo de enganoso e sedutor. Esta simplificação é perigosa, sobretudo nos dias de hoje, que se caracterizam por uma tendência iconoclasta, porque resolve numa forma aceitável ao preconceito geral um assunto extremamente complicado e difícil como é a psique. Não se percebe então que a psique não pode estar baseada necessariamente apenas no instinto da sexualidade, mas na totalidade dos instintos, e que esta base é apenas um fundamento biológico e não representa o edifício todo. Uma redução da psique t...

A Hermann Hesse

  A Hermann Hesse   Montagnolha (Tessin)   19 de agosto de 1950.   Prezado senhor Hesse, Entre as muitas mensagens e felicitações que recebi pelos meus 75 anos, uma das quais mais me surpreendeu e alegrou foi a sua. Agradeço especialmente a sua Morgenlandfahrt (1) que separei para ler num momento de tranquilidade. Mas, desde o meu aniversário, este momento ainda não chegou, pois fui cumulado de uma enxurrada de cartas e visitas além do meu controle. Na minha idade trata-se de ir “devagar e com cuidado”, e minha capacidade de trabalho já não é como era, principalmente quando se tem no programa tanta coisa ainda a ser trazida à luz do dia. Comecei um pouco tarde com isso devido à dificuldade dos temas que me vieram à mente. Permita-me enviar-lhe como retribuição ao seu presente uma prova de prelo de minha última publicação que aborda também o campo literário (2). O senhor também já se encontra na categoria dos avançados em idade e por isso é capaz de en...

Ao Prof. M. Bleuler

  Ao Prof. M. Bleuler (1)   Kantonale Heilanstalt Burghölzli   Zurique   19 de agosto de 1950.   Prezado colega, Sua gentil carta, com os votos de feliz aniversário (2), trouxe-me surpresa e grande alegria. Fiquei bastante comovido em receber esta mensagem cordial de meu antigo lugar de trabalho, onde começou tudo o que mais tarde aconteceu. Ainda mais que não tive o prazer de encontrá-lo em sua idade adulta. Lembro-me do senhor apenas como garoto, num tempo que para mim está no passado distante. Mas estão vivas em minha lembrança as impressões e o estímulo que recebi de seu pai, a quem sempre serei grato. Devo muito à psiquiatria e sempre me conservei interiormente próximo a ela, pois desde o início me preocupou um problema bem geral: de que estrato procedem as ideias tão impressionantes da esquizofrenia? As questões daí resultantes levaram-me aparentemente para bem longe da psiquiatria clínica e fizeram-me perambular pelo mundo todo. Nessas...