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Mensagens

Gerhard P. Zacharias

  Ao Dr. Gerhard P. Zacharias (1) Zurique, 24 de agosto de 1953.   Prezado doutor! A leitura de seu manuscrito (2), até onde cheguei no momento, foi muito interessante e instrutiva. Acho que o senhor conseguiu, do ponto de vista teológico, assimilar com bastante abrangência os resultados da moderna psicologia do inconsciente, o que se assemelha a uma encarnação ou realização do logos . Assim como Orígenes entende a Sagrada Escritura como corpo do logos , também a psicologia do inconsciente pode ser entendida como um fenômeno de recepção. A imagem de Cristo, como a concebemos anteriormente, não surgiu por intermediação humana, mas o Cristo transcendental (“total”) criou para si um corpo novo e mais específico (3). O reino de Cristo, ou o âmbito do logos “não é deste mundo”, mas uma interpretação para além do mundo; por isso é tão lamentavelmente incorreto quando a teologia, toda vez que faz uma de suas inevitáveis afirmações contra naturam , procura ansiosamente uma de...

A uma destinatária não identificada

A uma destinatária não identificada Suíça, Bollingen, 03 de agosto de 1953.   Prezada M., Agradeço de coração os seus votos de feliz aniversário. Infelizmente não consigo lembrar-me, aqui em Bollingen, do que a senhora me enviou como presente. Foi tão grande a avalanche de cartas, flores e presentes que me inundaram de modo que não me lembro mais de nada, a não ser de sua carta com a questão central sobre a oração. Isto foi e é   um problema para mim. Alguns anos atrás, achava eu que todas as reinvindicações que iam além do que é , eram injustiçadas e infantis, de modo que não se deveria pedir nada que não fosse garantido. Não podemos lembrar a Deus de nada, nem prescrever-lhe coisa alguma, a não ser que ele nos queira impor algo que a limitação humana não pode suportar. Deve-se perguntar naturalmente se isso acontece. Acredito que a resposta é sim, pois se Deus precisa de nós como reguladores de sua encarnação e de sua conscientização, é porque em sua ilimitação ultra...

To Richard F. C. Hull

  To Richard F. C. Hull (1) Ascona/Ticino, 03 de agosto de 1953.   Dear Mr. Hull, Nenhuma objeção para usar minha analogia da formiga e do telefone (2). Na verdade, o experimento todo está enfeitiçado (3), muito mais do que eu disse. O velho mago teve um tempo glorioso. Há dois anos, quando eu elaborava as estatísticas, ele me olhou fixamente de uma pedra que está na parede de minha torre em Bollingen (4). Quando eu o esculpi, descobri sua identidade. Pensei que o tivesse exorcizado, mas eu estava de novo e obviamente enganado. A última notícia é que “Sincronicidade” vai aparecer com Pauli (5)! Sinceraly yours, C. G. Jung.   (1) Richard Francis Carrington Hull, nascido em 1913, Ascona, atualmente Palma-Mallorca, tradutor das obras e das cartas de Jung para o inglês. (2) Numa carta a Hull (16.07.1953), Jung usou as analogias mencionadas para esclarecer o cálculo de probabilidade de seus experimentos sincronísticos. Ambas foram assumidas na edição inglesa ...

À Aniela Jaffé

  À Aniela Jaffé Zurique, 29 de maio de 1953.   Prezada Aniela! (...) O espetáculo da natureza eterna me dá uma sensação dolorosa de minha fraqueza e transitoriedade, e não encontro diversão alguma em imaginar uma aequanimitas in conspectu mortis. Como sonhei certa vez, minha vontade de viver é um daimon fogoso que torna às vezes infernalmente difícil a consciência de minha mortalidade. Pode-se no máximo salvar a cara, como o administrado infiel, e isto nem sempre, para que meu Senhor não encontre coisas demais a elogiar. Mas o daimon não se importa com isso, pois a vida é no fundo aço sobre pedra. Cordialmente seu C. G.

Ao Dr. James Kirsch

  Ao Dr. James Kirsch Los Angeles (Califórnia) EUA, 28 de maio de 1953.   Prezado colega! Finalmente consigo agradecer-lhe pessoalmente a amável carta que me enviou por ocasião da morte de Toni Wolff (1). No dia da morte dela, antes mesmo de haver recebido a notícia, tive uma séria recaída de taquicardia. Esta retrocedeu, mas deixou uma arritmia que prejudica muito minha capacidade física. Durante a época de Pentecostes arrisquei-me a vir para Bollingen, e espero recuperar-me ainda mais aqui, Toni Wolff morreu tão repentina e inesperadamente que é quase impossível acreditar em seu desaparecimento. Eu a vi ainda dois dias antes. Ninguém suspeitava de nada. Os sonhos com o Hades, que eu havia tido já em meados de fevereiro, eu os referi exclusivamente a mim, pois nada indicava Toni Wolff. Nenhum dos que se relacionavam direta e intimamente com ela haviam tido sonhos premonitórios; e na Inglaterra, Alemanha e Zurique, só pessoas que a conheciam superficialmente. No co...

Ao Dr. Zwi Werblowsky

The University Leeds/Inglaterra, 21 de maio de 1953.   Prezado doutro! Meus agradecimentos pelo gentil envio de suas duas conferências (1). Ei as li com grande interesse; a segunda, até duas vezes, pois anteontem chegou a Zurique o padre White. Sua crítica é muito interessante, mas um tanto difícil de se ler. Quando encontrei recentemente o padr White, ele ainda não a havia lido. Mas espero ter a oportunidade de discutir com ele alguns pontos. O senhor tem toda a razão com o “hornet’s nest” (2). As duas figuras pretas em Kafka (3) referem-se a uma duplicação da sombra, ou do si-mesmo (the two white balls) (4). Esta dualidade associa-se, por exemplo, aos mensageiros do submundo (Apocalipse de Pedro) (5) ou “aos animais úteis”. Normalmente a sombra só aparece na unicidade. Se, às vezes, aparece na dualidade, trata-se por assim dizer de uma duplicação ótica, ou seja, de uma metade consciente e outra inconsciente, de uma figura sobre o horizonte e outra abaixo dele. O que e...

Professor Henry Corbi

Prof. Henry Corbin (1) Institut Franco-Iranien Teerã/Irã, 04 de maio de 1953.   Cher Monsieur, Recebi, há poucos dias, a separata de seu ensaio sobre a “Sophia Eternelle” (2). Infelizmente não consigo expressar todos os pensamentos e sentimentos que me ocorreram durante a leitura de sua admirável exposição. Meu francês está por demais enferrujado para que possa formular com precisao o que gostaria de lhe dizer. Seja como for, preciso dizer-lhe o quanto me alegrei com seu trabalho. Foi uma alegria incomum e uma experiência muito rara, única mesmo, ser entendido totalmente. Estou acostumado a viver num vácuo intelectual mais ou menos completo, e meu Resposta a Jó em nada colaborou para uma diminuição disto. Ao contrário, provocou uma avalanche de preconceitos, malentendidos e sobretudo de tremendas bobagens. Recebi centenas de críticas, mas nenhuma, nem de longe, chega perto de sua compreensão clara e profunda. A intuição do senhor é espantosa. Schleiermacher é de fato u...