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Mensagens

Ao Dr. H.

  Ao Dr. H. Alemanha, 30 de agosto de 1951. Prezado senhor H., O senhor precisa desculpar o meu longo silêncio. É que na primavera sofri muito do fígado e tive de ficar muitas vezes de cama. E nesse misere todo, ainda escrevi um pequeno ensaio (1) (cerca de 100 laudas datilografadas), cuja publicação me trouxe algumas preocupações. Tenho receio de estar mexendo um caldeirão de bruxas. Trata-se da mesma questão que o senhor levantou em sua carta de 1º de maio. Eu mesmo sinto que ainda não encontrei a formulação exata de minha resposta, isto é, aquele modo de exposição clara que pode transmitir ao público a minha concepção, sem provocar tantos mal-entendidos. O meu modus procedendi é naturalmente o empírico: como posso descrever satisfatoriamente o fenômeno “Cristo” sob o aspecto da experiência psicológica? As afirmações sobre Cristo são em parte afirmações sobre um homem empírico e, na maior parte, afirmações sobre um homem-deus mitológico. A partir dessas diversas afirmaçõe...

Ao Dr. Med. S.

Alemanha, 08 de agosto de 1951.   Prezado colega, Receba meus cordiais agradecimentos pela gentil lembrança de meu aniversário. Vejo com pesar em sua carta que o senhor sobre de zunidos nos ouvidos. Sintomas desse tipo são muitas vezes usados pelo inconsciente para “expressar” conteúdos psíquicos, isto é, os sintomas são intensificados por um afluxo psicógeno e só então adquirem o verdadeiro caráter de tortura. Sua atenção é forçada para dentro, onde fica presa aos zunidos perturbadores. É claro que ela deve voltar-se para dentro, mas não ficar presa aos zunidos; deveria penetrar naqueles conteúdos que aturam magneticamente sobre ela. A palavrinha “deveria” significa sempre que não sabemos o caminho para o objetivo almejado. Muitas vezes, porém, é útil saber ao menos que sobre o sintoma orgânico ainda há uma camada psíquica que poderíamos fazer sobressair. Sei apenas por experiência que é muito grande a exigência do inconsciente pela introversão – em seu caso, pode ouvir pa...

Excerto de carta à Aniela Jaffé

  Zurique, 18 de julho de 1951.   Prezada Aniela, (...) Alegro-me especialmente pelo fato de a senhora ter conseguido penetrar no sentido da segunda parte de meu escrito (1). A maioria dos leitores ficou só na primeira parte. Eu pessoalmente prefiro a segunda parte porque está ligada à questão do presente e futuro. Se existe algo como ser arrebatado violentamente por um espírito, então foi desse modo que nasceu este escrito. (...)   (1) Trata-se do manuscrito de Resposta a Jó.

Ao Prof. Karl Kerényi

  Ascona, 12 de julho de 1951.   Prezado Professor! A rápida publicação e a bela apresentação de Einfühurung in die Mythologie (1) me supreenderam. É gratificante saber que este livro está agora bem preservado. As experiências que está fazendo atualmente (2) ocorrem inevitavelmente a quem se ocupa conscientemente com o mundo primitivo das imagens eternas. Ele se estende para além de si mesmo. Nele se confirma a opinião do velho alquimista: “maior autem animae pars extra corpus est...” (3). O senhor tem razão: em relação a seu pano de fundo arquetípico, as imagens banais de sonhos são mais instrutivas e de maior força probatória do que sonhos “mitologizados”, que são suspeitos de provirem de leituras. O caso que o senhor conta é muito interessante. Trata-se de um efeito consequente do modelo arquetípico. Estou muito interessado em ouvir os detalhes de suas experiências. Posso imaginar que para um mitólogo a colisão com arquétipos vivos seja uma experiência muito esp...

Ao Dr. Med. St. Wieser

Horgen em Zurique, 06 de julho de 1951.   Prezado colega, Agradeço muito a gentil informação sobre sua interessante experiência. Trata-se de um caso que chamaríamos de clarividência. Mas como é uma palavra que nada significa de mais relevante, também nada explica. Pode-se entender alguma coisa a mais desses acontecimentos se os observarmos dentro do grande contexto de fatos iguais e semelhantes. Lançando-se um olhar superficial sobre a soma dessas experiências, chega-se à conclusão de que existe algo como um “conhecimento absoluto” (1), não acessível à consciência, mas provavelmente ao inconsciente, ainda que apenas sob certas condições. De acordo com a minha experiência, essas condições dependem sempre de alguma emoção. Toda emoção mais profunda tem uma influência rebaixadora sobre a consciência, o que Pierre Janet chama de “abaissement du niveau mental” (2). Mas o rebaixamento da consciência significa por outro lado uma aproximação do inconsciente e, como este parece ter um...

À Aniela Jaffé

  Zurique, Bollingen, 29 de maio de 1951.   Prezada Aniela, (...) Assim vai indo o tempo todo: lembranças que surgem e desaparecem a seu bel-prazer. Dessa maneira também aportou a grande baleia; refiro-me ao livro Resposta a Jó. Não posso afirmar que já tenha digerido completamente este ato de violência do inconsciente. Ainda rumoreja um pouco, uma espécie de vibração. Eu o percebo enquanto vou esculpindo minha inscrição (que fez bons progressos). Então me vêm ideias como, por exemplo, de que a consciência é apenas um órgão para perceber a quarta dimensão, isto é, o sentido que está em tudo, e que ela mesma não produz nenhuma ideia real. Estou bem melhor, apenas o meu sono ainda está um pouco delicado. Não devo falar muito, nem com veemência. Felizmente aqui estas oportunidades são raras. Como vai você? Espero que não se empenhe demais no Instituto. Quanto a visitá-la, não quero fazer falsas promessas. Mas penso no caso. Por enquanto, saudações cordiais de C. G.

Ao Dr. Zwi Werblowsky (1)

    Amsterdã, 28 de março de 1951.   Prezado senhor Werblowsky, Espero que tenha recebido, neste ínterim, o meu curto prefácio (2). Infelizmente, só agora tenho tempo para algumas observações sobre o seu trabalho: P. 80. Proporia uma terminologia um pouco diferente. Em vez de dizer “promovendo o processo de individuação” – exatamente a coisa que não se pode fazer, porque leva imediatamente a uma inflação ou a uma identificação com arquétipos – recomendaria algo como “tornando-se temerariamente muito egoísta”. O termo individuação deve ser reservado para a evolução legítima da enteléquia individual. É bem esclarecedora sua afirmação de que a hybris foi o pior vício específico dos gregos. Corresponde ao conceito de superbia de Agostinho. Ele diz que há dois pecados capitais: a superbia e a concupiscentia (3). É de se supor então que, se o vício específico dos gregos é a superbia, o vício da concupiscentia calha para os judeus. Isto encontramos claramente em...